Essa é mais uma daquelas histórias difíceis de acreditar em que o leitor fica o tempo todo tentando encontrar algo subliminar. Quer uma dica? Não tente encontrar a ‘subliminaridade’ de meus escritos, apenas abra sua mente e deixe que ela lhe encontre! Em pleno centro de Paris, bem perto da torre Eiffel, havia um velho casarão do século XVIII que pertenceu a uma nobre família já falecida. A casa estava à venda há muito tempo, porém ninguém manifestava interesse por ela devido a um boato que corria de boca em boca desde a trágica morte de seu antigo proprietário. Segundo o povo da cidade aquela casa foi palco de uma morte terrível, no ano de 1789. Nessa época a França passava por um dos momentos mais tumultuados de sua história: a Revolução Francesa. (A Revolução Francesa foi um conjunto de acontecimentos que, entre 05 de maio de 1789 e 09 de novembro de 1799, alteraram o quadro político e social da França. Ela começou com a convocação dos Estados Gerais e a Queda da Bastilha e se encerrou com o golpe de estado do 18 Brumário de Napoleão Bonaparte. Em causa estavam o Antigo Regime [Ancien Régime] e os privilégios do clero e da nobreza. Foi influenciada pelos ideais do Iluminismo e da Independência Americana [1776]. A Revolução é considerada como o acontecimento que deu início à Idade Contemporânea. Aboliu a servidão e os direitos feudais e proclamou os princípios universais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" [Liberté, Egalité, Fraternité].)
Naquele velho casarão vivia um homem culto de hábitos estranhos. Não gostava de receber visitas, nunca abria a janela e tinha como único e fiel companheiro um cão da raça Boxer. (Deutscher Boxer é uma raça canina oriunda da Alemanha. Aparentemente foram gerados através de cruzamentos entre os brabants bullenbeisser da Bélgica e cães semelhantes de Danzig, ainda que se considere o buldogue inglês como um de seus antecessores. Estes caninos, os mais altos das raças de cara achatada, são considerados eternas crianças, embora desconfiados e cautelosos com estranhos.) Pelo pouco que sabemos aquele velho senhor era um professor aposentado que herdou aquele casarão de seus pais já falecidos. Na verdade seu pai foi guilhotinado a mando do rei Luis XIV por se opor abertamente ao regime de privilégios imposto pelo Absolutismo francês. Após o assassinato de seu pai, sua mãe foi levada a masmorra da Bastilha e de lá nunca mais saiu. Aos trinta anos de idade ele herdou a casa e o cachorro, logo depois contrariando os pedidos de seus estimados alunos, se aposentou. E desde então vive isolado dentro de sua propriedade. Todos vivem se perguntando o que se passa no interior daquela casa, e mais ainda, o que se passa no interior daquela mente. Certa vez o jornalista Jean Paul Marat, editor e chefe do jornal Les Ami du Peuple (O Amigo do Povo) foi visto entrando na propriedade. Horas depois saiu de lá com uma grande quantidade de papéis em suas mãos. No outro dia seu jornal publicava uma resenha de três páginas sobre as injustiças cometidas pelo Rei nos seus últimos quinze dias de governo. A notícia foi bombástica e revoltou toda a população de Paris que já estava descontente há muito tempo. Aquela horda de pessoas revoltadas atacou o castelo de Luis XVI gritando: O amigo do povo nos abriu os olhos, queremos nossos direitos respeitados! O exército real teve muito trabalho para dissolver o movimento, e a muito custo conseguiu acalmar a população.
No outro dia, na sala de reuniões de Luis XVI não se falava em outro assunto. Um dos ministros incompetentes, que por sinal era um dos protegidos do Rei, estava inconformado com a resenha que fora publicada e mais inconformado ainda com o fato dela conter o nome do autor, que fez questão de não esconder sua verdadeira identidade. O Rei, por sua vez, estava atônito, não sabia o que fazer... Por um lado admirava a coragem daquele homem que fez questão de não esconder sua identidade, por outro estava apavorado pois sabia que mais cedo ou mais tarde uma revolução eclodiria levando a monarquia francesa abaixo. Por sugestão do primeiro ministro mandou prender e interrogar o autor da resenha. Suas tropas cercaram o casarão e exigiram que o proprietário saísse de mãos levantadas. Porém de nada adiantou gritar ou atirar para o alto... O exército real pôs a porta abaixo na intenção de capturar o acusado, mas quando subiu as escadarias teve uma surpresa, ele havia se matado! Ao lado do corpo, seu cão, único e fiel companheiro rosnava enquanto mostrava os dentes aos soldados como quem diz: Ele está morto, mas suas ideias não! No outro dia o jornal de Marat publicava duas notícias, uma nota de falecimento e uma lista de atitudes erradas cometidas pelo Rei Luis XVI. Foi a gota d’água, o povo tomado pela ira e munido de uma revolta incontrolável derrubou a Bastilha e em seguida a monarquia, decapitando o Rei e seu bando de protegidos.
Há quem diga que o fantasma daquelas ideias revolucionárias ainda ronda o antigo casarão. E mais, muitos afirmam ouvir os rosnados de um cão sempre que alguém tenta entrar na propriedade. A única coisa que posso afirmar é que aquela janela, que nunca foi aberta, continuará fechada, por muito tempo.




2 comentários:
Alexandre,
Seu relato documentário com pitadas de ficção saiu muito bom. Não importa se de fato ocorreu, o importante é a contextualização naquela que foi a revolução mais importante para o mundo ocidental juntamente com a revolução russa de 1918. Abraços e parabéns pela postagem, JAIR.
Obrigado pelo comentário Nobre Colega...
Fico feliz que tenhas gostado!
Abraços...
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